Basicamente, no entender do neopositivismo, cabe à filosofia esclarecer e precisar os meios de expressão do conhecimento, a fim de eliminar equívocos e sofismas. Para tanto, deve-se seguir o princípio de verificabilidade. Isso significa que cada sentença formulada deve ser avaliada sob o prisma da Ciência, de modo que se possa estabelecer um relacionamento lógico entre as premissas, cujo critério de avaliação seja totalmente isento de inclinações e atributos tendenciosos. Deve-se retirar qualquer possibilidade de intervenção humana na conclusão.
Até aqui, esta leitura acerca do que cabe à filosofia pode parecer perfeitamente aceitável. Afinal, nada melhor do que possuir sentenças imparciais, comprovadas pela lógica e pela Ciência. Mas e a metafísica? Será possível verificar todas as sentenças e chegar a uma conclusão perfeitamente lógica sobre uma questão de caráter metafísico? Não. Segundo os neopositivistas, a metafísica não é assunto a ser discutido pela filosofia. E a ética? É tangível uma visão de acordo com os critérios neopositivos acerca do comportamento humano? Não. Afinal, o que é a ética senão um estoque de decisões volitivas de origem social? Nada verificável. Se não é possível verificar, para os neopositivistas, não cabe à filosofia.
Eis o ponto em que esta doutrina perde seu valor! Afasta da filosofia suas questões essenciais e faz com que a Ciência forneça os critérios em que será verificada sua validade para as ações humanas.
A menos que meu leitor seja um idealista neopositivo vienense, não há dúvidas acerca do quão tendenciosa é a visão desta doutrina, haja vista, além do paradoxo exposto, a conjuntura de prosperidade científica em que foi elaborada e a comprovada insustentabilidade de ações humanas voltadas exclusivamente para o desenvolvimento científico-positivo. Incontáveis são os problemas ambientais que comprovam a inviabilidade de uma conduta deste gênero, ainda que meus argumentos sejam considerados ilógicos pelo princípio de verificabilidade.
Mas há algo passível de absorção nessa overdose de epistemologia: dado o desejo por uma informação legitima e confiável, até que ponto é possível verificar o conteúdo de uma mensagem? Sobretudo em textos jornalísticos, quanta intervenção do escritor é realmente necessária para que se transmita um fato, um acontecimento? Não seria benéfico “desumanizar” a informação? Afinal, já existe tanto juízo de valor somente na escolha entre emitir ou omitir um dado!
Não veja meu questionamento como utopia, caro leitor, pois me dei ao trabalho de explanar toda uma doutrina para mostrar que a ausência do homem na análise é inviável. Falemos de coisas tangíveis e que realmente estão acontecendo.
O blog da Petrobrás, por exemplo. Quanta esperança nasceu em mim daqueles textos! Quanta risada dei ao ver que a colunista da folha havia reduzido uma entrevista de vinte e cinco minutos a dois períodos de seu texto! Não que eu ache que a Petrobrás mudará a mídia e esta passará a veicular uma informação mais transparente. Mas só a possibilidade de ver uma empresa se comunicar com a população, refutando as informações da mídia que considera tendenciosas – ou até mesmo pouco claras – já traz uma sensação de progresso. Principalmente devido à facilidade com que isso é feito, uma vez que pulveriza qualquer tipo de intermediação e permite um contato direto entre a informação e o leitor.
Outro aspecto indesejável que deixa de existir com a eliminação de intermediários é a mídia como fornecedora dos critérios que legitimam a informação. Assim como a Ciência não deve fornecer as regras de validação do saber científico, também não cabe ao jornalista decidir o que deve ou não ser reportado.
Não estou sugerindo que joguemos todos os jornalistas aos leões. Reconheço que há grandes nomes na imprensa que, justamente por humanizarem o conteúdo da informação, contribuíram para o esclarecimento de partes da informação que passariam despercebidas sem sua intervenção. O grande problema, na verdade, é que não se tem a opção de escolha entre a informação com ou sem o jornalista; escolhe-se entre um ou outro jornalista (“Escolherás entre Veja e CartaCapital e agradecerás a Deus por a mídia ser tão heterogênea!”).